As bets aqueceram o mercado de saúde global, segundo levantamento
Existe uma espécie de epidemia de apostas que colocou a economia em colapso, menos o setor de health
Um estudo inédito do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps) calculou pela primeira vez o custo total das apostas para a sociedade brasileira. O número é estarrecedor: R$ 30,6 bilhões anuais.
A conta se divide assim: R$ 17 bilhões em decorrência de mortes por suicídio relacionadas ao vício; R$ 10,4 bilhões pela perda de qualidade de vida causada por depressão; e R$ 3 bilhões em tratamentos médicos diretos. Para colocar em perspectiva: o setor de bets pagou R$ 6,8 bilhões em impostos entre fevereiro e setembro de 2025. Ou seja, para cada real que entra nos cofres públicos, mais de quatro reais são destruídos em vidas, famílias e produtividade.
Os números do SUS confirmam a epidemia em tempo real. Os atendimentos por ludopatia nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) saltaram de 65 em 2019 para 1.292 em 2024 — um crescimento de 1.887% em cinco anos. No INSS, a média histórica de auxílios-doença concedidos por vício em jogo era de 11 casos por ano. Entre junho de 2023 e abril de 2025, foram 276 — um aumento de mais de 20 vezes.
O mercado brasileiro de saúde mental está passando por uma inflexão. Impulsionado por mudanças comportamentais, regulatórias e tecnológicas, o setor deixou de ser um nicho para se tornar uma das verticais mais dinâmicas do ecossistema de saúde. E um dos vetores dessa transformação é uma demanda que poucos anteciparam: o crescimento exponencial de transtornos associados a comportamentos aditivos digitais, incluindo o jogo compulsivo.
Os números são expressivos. O III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III) identificou que 7,3% da população brasileira acima de 14 anos, cerca de 10,9 milhões de pessoas, apresenta padrões de jogo de risco ou problemático. Destes, 1,4 milhão atinge critérios compatíveis com Transtorno do Jogo, condição reconhecida pela OMS desde 1980 e classificada no CID-11.
Para o setor de saúde, essa realidade representa simultaneamente um desafio operacional e uma oportunidade de mercado. Entender como absorver essa demanda de forma sustentável, e como posicionar-se estrategicamente nesse cenário, é uma questão central para healthtechs, operadoras, clínicas e profissionais.
O dimensionamento da demanda
Para avaliar o potencial de mercado, é necessário primeiro dimensionar a demanda. Os indicadores disponíveis apontam para um crescimento consistente e acelerado: no sistema público, os atendimentos por transtornos relacionados a jogos nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) passaram de 413 em 2021 para 1.265 em 2024, crescimento de 206% em três anos. No INSS, as concessões de auxílio-doença por ludopatia saltaram de uma média histórica de 11 casos anuais para 276 entre junho de 2023 e abril de 2025.
Um estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps) estimou o impacto total em saúde em R$ 30,6 bilhões anuais, considerando custos diretos de tratamento (R$ 3 bilhões), perda de qualidade de vida associada à depressão (R$ 10,4 bilhões) e mortalidade prematura (R$ 17 bilhões). Independentemente da precisão metodológica dessas estimativas, elas sinalizam uma demanda de magnitude relevante.
O perfil demográfico dessa demanda é particularmente relevante para o mercado privado: 73% dos beneficiários de auxílio-doença por vício em jogo são homens, e 80% têm entre 18 e 39 anos, população economicamente ativa e, em grande parte, com acesso a planos de saúde corporativos.
O contexto regulatório
A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), em vigor desde maio de 2025, representa um ponto de inflexão para o mercado de saúde mental corporativa. A norma obriga todas as empresas brasileiras a incluírem riscos psicossociais em seus Programas de Gerenciamento de Riscos (PGR), mapeando fatores como estresse, sobrecarga emocional e condições que afetam o bem-estar psíquico dos trabalhadores.
O impacto imediato é mensurável. Segundo o Banco Nacional de Empregos, a oferta de vagas para psicólogos aumentou 88% no primeiro semestre de 2025 em comparação com o período anterior. Empresas que antes tratavam saúde mental como benefício opcional agora precisam estruturar programas formais — criando demanda por soluções escaláveis.
Para healthtechs e consultorias especializadas, a NR-1 funciona como um mandato de mercado. A Vittude, uma das principais plataformas de saúde mental corporativa do país, projeta crescimento de 80% em 2025, impulsionada diretamente pela nova regulamentação. 'Muitas empresas que antes não priorizavam a saúde mental agora estão reservando orçamentos para essa área, devido à obrigatoriedade da NR-1', avalia Tatiana Pimenta, CEO da empresa.
O timing é estratégico: empresas que se posicionarem como parceiras das organizações no cumprimento da NR-1 terão vantagem competitiva em um mercado que está se formando agora.
O ECOSSISTEMA DE HEALTHTECHS EM EXPANSÃO
O mercado brasileiro de healthtechs consolidou-se como o mais dinâmico da América Latina. Segundo o relatório HealthTech Recap 2024, elaborado pelo Distrito em parceria com a Associação Brasileira de Startups de Saúde (ABSS), o país concentra 64,8% de todas as startups de saúde investidas na região, com 602 empresas ativas.
Os investimentos totalizaram R$ 2,1 bilhões em 2024, crescimento de 18% sobre 2023. Em termos de número de rodadas, houve aumento de 38%, indicando que investidores estão apostando em uma nova geração de startups, com tickets médios menores mas maior diversificação de portfólio.
A categoria 'bem-estar físico e mental' representa 10% das healthtechs fundadas entre 2020 e 2025, a maior entre todas as verticais de empresas recém-criadas. Isso indica que empreendedores estão identificando oportunidades específicas nesse segmento.
Players e modelos de negócio
O mercado de saúde mental digital opera com diferentes modelos:
Plataformas B2B de benefícios corporativos: Vittude, Zenklub, Guia da Alma e Starbem competem oferecendo acesso a redes de psicólogos, conteúdos educacionais e ferramentas de mapeamento de riscos. O modelo predominante é SaaS com cobrança por colaborador ou por utilização.
Plataformas B2C de terapia online: focadas no consumidor final, oferecem agendamento de sessões com profissionais licenciados. A telemedicina realizou mais de 30 milhões de atendimentos remotos em 2024, segundo a Associação Brasileira de Telemedicina e Telessaúde.
Soluções de diagnóstico e monitoramento: Startups que utilizam IA para identificar padrões de risco, oferecer triagem automatizada ou monitorar indicadores de bem-estar. Das 602 healthtechs ativas, 130 já aplicam inteligência artificial em seus processos.
Programas de prevenção e educação: plataformas que combinam conteúdo educacional, gamificação e acompanhamento comportamental para atuar na prevenção primária — antes que transtornos se instalem.
O mercado farmacêutico: tendências de consumo
O crescimento da demanda por saúde mental reflete-se diretamente no mercado farmacêutico. Segundo dados do Conselho Federal de Farmácia com base na consultoria IQVIA, a venda de antidepressivos e estabilizadores de humor cresceu 58% entre 2017 e 2021, e mantém trajetória ascendente desde então.
Em 2024, os primeiros cinco meses registraram aumento de 8% nas vendas de antidepressivos em comparação com o mesmo período de 2023. Entre adultos de 29 a 58 anos, o crescimento foi de 12,4% no período de junho/2024 a maio/2025. Hoje, antidepressivos são a segunda categoria de medicamentos mais vendida no país, atrás apenas de antibióticos.
Os medicamentos líderes de mercado, escitalopram, fluoxetina, sertralina, duloxetina (Velija), são indicados para transtornos de ansiedade e depressão, condições frequentemente comórbidas com dependências comportamentais. A literatura médica associa o Transtorno do Jogo a taxas elevadas de ansiedade, depressão e, em casos graves, ideação suicida.
Para a indústria farmacêutica, o cenário indica demanda sustentada de longo prazo. Para profissionais de saúde, reforça a importância de abordagens integradas que combinem farmacoterapia e psicoterapia.