Black Friday 2025 no Brasil: refeições fora de casa são grande destaque
Com projeção de R$ 13,6 bilhões em vendas gerais, a Black Friday 2025 marca a consolidação definitiva de bares, restaurantes e delivery como recordistas de vendas da maior data promocional do varejo brasileiro
A Black Friday brasileira está mudando de endereço. Enquanto televisores, eletrodomésticos e eletrônicos continuam dominando o cenário, o setor de bares, restaurantes e estabelecimentos de alimentação fora do lar vem ganhando cada vez mais destaque.
Os números de 2025 confirmam: o setor de alimentação registrou crescimento de 17% durante a Black Friday, segundo o Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICV), performance que supera amplamente a média nacional de 2,4% projetada para o varejo como um todo em 2025.
O que começou como uma adaptação de algumas redes há poucos anos evoluiu para uma estratégia comercial planejada, com participação massiva de estabelecimentos de todos os portes.
Segundo levantamento do Instituto Foodservice Brasil (IFB), o setor de alimentação fora do lar deve movimentar R$ 241 bilhões em 2025, com crescimento de 6,9% sobre o ano anterior.
A Black Friday se insere neste contexto como catalisador estratégico, concentrando em um período curto um volume de transações que impacta o caixa imediato e a base de clientes para os meses seguintes.
"A data virou uma oportunidade real para o nosso setor", afirma Hélio Bernardo, franqueado do Koni e do Mania de Churrasco em Brasília. Participante da Black Friday há três anos, ele registra aumentos consistentes tanto em faturamento quanto em fluxo de clientes. "Todos os anos notamos crescimento. Os consumidores estão mais atentos às ofertas e respondem muito bem às promoções. Mas o ganho vai além: os descontos praticados por fornecedores e distribuidores nos permitem antecipar compras e renovar materiais a custos menores."
A matemática favorável do setor
A aderência da alimentação fora do lar à Black Friday encontra explicação em uma conjunção de fatores econômicos e comportamentais. Diferentemente de produtos duráveis, onde o desconto precisa compensar a espera do consumidor, a experiência gastronômica opera em outra lógica: é imediata, compartilhável e repetível. Um desconto de 50% em uma refeição não apenas atrai o cliente naquele momento, cria memória de marca e potencial de retorno.
Dados da pesquisa do iFood para parceiros revelam que 33% dos consumidores brasileiros pretendem gastar com alimentação durante a Black Friday 2025. O número ganha relevância quando cruzado com as projeções gerais da data: entre R$ 13,6 bilhões (segundo consultoria Gauge e agência W3haus) e R$ 15 bilhões (segundo Datafolha), com 42% da população pretendendo realizar compras, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs).
A transformação da Black Friday em "Black November" beneficia especialmente o setor de alimentação. Segundo o Sebrae, 83% dos consumidores aproveitaram ofertas ao longo da semana ou do mês em 2024, contra apenas 10% que aguardaram o dia exato. Para restaurantes, isso significa diluir a pressão operacional ao longo de várias datas, evitando gargalos na cozinha e mantendo padrão de qualidade — preocupação inexistente no varejo tradicional, onde o produto já está pronto.
"As datas comemorativas são boas oportunidades para promover o estabelecimento", explica José Eduardo Camargo, líder de Conteúdo, Comunicação e Inteligência da Abrasel. "Elas ajudam a atrair novos clientes e, ao mesmo tempo, fortalecem o relacionamento com quem já frequenta a casa. O que diferencia é o planejamento comercial."
Do desconto à estratégia integrada
A evolução do setor na Black Friday reflete amadurecimento. As primeiras participações, há três ou quatro anos, concentravam-se em descontos genéricos, 30%, 40%, 50% sobre o cardápio inteiro. A prática gerava volume, mas comprometia margem e, pior, atraía o perfil errado de cliente: aquele que aparece apenas quando há promoção e desaparece assim que os preços normalizam.
A guinada estratégica veio com a compreensão de que o setor de alimentação possui ferramentas próprias, distintas do varejo tradicional. Ao invés de descontos diretos em percentual, estabelecimentos passaram a trabalhar com combos estruturados, vouchers de consumo futuro, experiências exclusivas e promoções horárias.
A rede Forneria Carioca exemplifica a abordagem refinada. Para 28 de novembro, oferece pizza Calabresa gigante (40cm) por R$ 44,90 (de R$ 76) e Banana Nevada broto por R$ 1, esta última, porém, condicionada à compra de qualquer pizza gigante. A mecânica não apenas protege a margem como induz ao aumento do ticket médio.
O Grupo Rão adota estratégia diferente: descontos de até 39% exclusivamente pelo aplicativo próprio (Mundo Rão) até 30 de novembro. A escolha não é arbitrária. Além de reduzir o custo de distribuição (não há taxas de marketplace), consolida uma base de dados própria e estimula a criação de hábito de compra direto.
Outra tendência crescente é a venda de vouchers. Restaurantes como Bottarga, em São Paulo, oferecem Vale Especial de R$ 247 que inclui duas pizzas individuais, um calzone ou pizza doce e dois drinks, válido por 60 dias a partir de dezembro. O modelo tem três virtudes: gera fluxo de caixa imediato, garante retorno futuro do cliente e não sobrecarrega a operação no dia da Black Friday propriamente dita.
Plataformas digitais como amplificadores
O crescimento do setor de alimentação fora do lar na Black Friday é indissociável da consolidação das plataformas de delivery. O iFood, que projeta realizar a maior Black Friday de sua história em 2025, dobrou o investimento em relação ao ano anterior e espera crescimento de 70% em volume de vendas comparado a novembro de 2024.
A campanha "Novembro Absurdo" oferece diariamente descontos de até 60% em todas as categorias, incluindo restaurantes, com produtos e refeições a partir de R$ 0,99 e frete grátis. A mecânica, descontos diários rotativos, roleta virtual para cupons, gamificação, mantém o usuário engajado ao longo do mês inteiro, não apenas no dia 28.
Para os estabelecimentos parceiros, as plataformas funcionam como vitrines ampliadas. Dados do iFood revelam que frete grátis e cupons de desconto são os motivos mais citados pelos consumidores para aproveitar a Black Friday em alimentação. A empresa oferece ferramentas como iFood Anúncios e Campanha Inteligente, que permitem aos restaurantes ganharem destaque na plataforma mediante investimento adicional.
A concorrência segue o mesmo caminho. Rappi, Uber Eats e outros marketplaces estruturam suas próprias campanhas de novembro, criando um ambiente hiperestimulado onde o consumidor se habitua a buscar ofertas em alimentação com a mesma intensidade que busca em eletrônicos.
O duplo papel: vender e comprar
A Black Friday opera em via de mão dupla no setor de alimentação fora do lar. Enquanto estabelecimentos se organizam para vender mais, também aproveitam para comprar melhor.
"Aproveitamos não só para vender mais, mas também para comprar produtos e serviços", destaca Hélio Bernardo, da franquia Koni. Fornecedores de equipamentos, utensílios, ingredientes e serviços diversos praticam descontos relevantes em novembro, permitindo aos empresários do setor antecipar investimentos e renovar materiais a custos significativamente menores.
Um fogão industrial que custaria R$ 8.000 pode ser encontrado por R$ 5.500. Liquidificadores industriais, processadores, sistemas de gestão, mobiliário — praticamente toda a cadeia de fornecimento do food service entra no movimento. Para pequenos e médios estabelecimentos, onde a margem é apertada e o capital de giro limitado, a economia pode representar a diferença entre viabilizar ou adiar uma expansão.
Contexto macroeconômico favorável
O desempenho do setor de alimentação fora do lar na Black Friday 2025 ocorre em contexto macroeconômico específico. O mercado de trabalho brasileiro registra o menor nível de desemprego da série histórica do IBGE, com rendimento médio mensal atingindo R$ 3.255 em 2024 e massa salarial real de R$ 332,6 bilhões.
A Confederação Nacional do Comércio (CNC) projeta R$ 5,4 bilhões em vendas gerais na Black Friday 2025, alta de 2,4% sobre 2024 — o maior volume desde o início da série histórica em 2010. O resultado é atribuído ao câmbio mais favorável (dólar abaixo de R$ 5,30, contra quase R$ 5,80 em 2024), que reduz o custo de produtos importados, e ao mercado de trabalho aquecido.
No entanto, persistem limitadores. A taxa média de juros do crédito livre para pessoas físicas chegou a 58,3% ao ano, o maior patamar para esta época desde 2017. O endividamento atinge 30,5% das famílias brasileiras e a inadimplência marca 13,2%. O cenário impede expansão mais robusta, mantendo o crescimento em ritmo moderado.
Para o setor de alimentação fora do lar, porém, o impacto dos juros altos é relativamente menor. Diferentemente da compra de um eletrodoméstico parcelado em 12 vezes, a refeição é consumida e paga imediatamente (ou em poucas parcelas). O gasto médio por transação no setor fica entre R$ 40 e R$ 80, valor que raramente justifica parcelamento extenso.
Desafios operacionais e de comunicação
A participação massiva do setor na Black Friday não vem sem desafios. O principal é operacional: como atender volume significativamente maior sem comprometer qualidade, tempo de espera e experiência do cliente.
Estabelecimentos que não se preparam adequadamente enfrentam filas extensas, pedidos errados, tempo de entrega duplicado e equipes sobrecarregadas. O resultado é contraproducente: em vez de criar memória positiva de marca, gera frustração. Avaliações negativas nas plataformas digitais e redes sociais duram muito mais que o desconto de um dia.
A solução passa por planejamento minucioso: adequação de estoque, dimensionamento de equipe (incluindo contratações temporárias), simplificação de cardápio para itens promocionais (reduzindo complexidade na cozinha), definição de limites de pedidos simultâneos e, fundamentalmente, gestão de expectativas — comunicar claramente prazos de entrega e condições da promoção.
Outro desafio é a comunicação. Com milhares de estabelecimentos promovendo ofertas simultaneamente, destacar-se exige criatividade e investimento. Restaurantes precisam não apenas definir boas promoções, mas garantir que elas cheguem ao público-alvo. Isso significa presença ativa em redes sociais, investimento em mídia paga nas plataformas de delivery, parcerias com influenciadores locais e, cada vez mais, uso de bases próprias de clientes via WhatsApp e aplicativos proprietários.
Perspectivas para consolidação definitiva
A trajetória do setor de alimentação fora do lar na Black Friday sugere consolidação irreversível. O crescimento de 17% em 2024 não foi pontual — é sequência de três anos consecutivos de avanço. A projeção para 2025, com o setor caminhando para movimentar R$ 241 bilhões no ano, reforça que a data promocional se incorporou definitivamente ao calendário estratégico.
Segundo a CNC, a Black Friday já ocupa a quinta posição no calendário do varejo nacional, atrás apenas de Natal, Dia das Mães, Dia das Crianças e Dia dos Pais. Para o setor de alimentação especificamente, a posição relativa tende a ser ainda mais relevante, considerando que datas como Dia dos Pais e Dia das Crianças têm impacto menor no food service do que no varejo tradicional.
A perspectiva de que 73% dos empresários do setor esperam aumento nas vendas no primeiro trimestre de 2025, segundo pesquisa da Abrasel, sugere confiança estrutural. A Black Friday não é vista como salvação isolada, mas como componente de uma estratégia comercial mais ampla que inclui também fim de ano, verão e carnaval.
Arthur Veloso, presidente do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares da Baixada Santista e Vale do Ribeira (SINHORES), resume: "É uma data que, somada ao recebimento da primeira parcela do 13º salário e à própria movimentação do período, costuma impulsionar a demanda e incentivar os estabelecimentos a criarem estratégias para aumentar o consumo e apresentar novos produtos ao público. Esse cenário contribui para o aquecimento das vendas e para melhorar os resultados do segmento na região."
A Black Friday 2025 consolida, assim, uma realidade que há cinco anos parecia improvável: bares, restaurantes e estabelecimentos de alimentação fora do lar não apenas participam da data — são protagonistas dela. E, diferentemente do varejo tradicional onde margens apertadas tornam descontos uma guerra de atrito, no food service a Black Friday pode ser, simultaneamente, boa para o cliente, boa para o estabelecimento e boa para os fornecedores.
O setor descobriu que não precisa imitar o varejo de produtos para ter sucesso na Black Friday. Precisa, isso sim, adaptar a lógica da data às suas especificidades: experiência, imediatismo, compartilhamento social e potencial de fidelização. Quando faz isso bem, ganha não apenas uma sexta-feira de faturamento alto — ganha clientes para o ano inteiro.