Inovação na medicina que pode superar Ozempic não é medicação para emagrecimento
Edição genética de embriões recebe US$30 milhões em investimento privado e pode redefinir o futuro da medicina preventiva, mas a tecnologia ainda é ilegal nos EUA
Se você achava que o Ozempic foi disruptivo, prepare-se para o que vem a seguir.
Uma nova categoria de intervenção médica está em desenvolvimento no Vale do Silício e ela não trata doenças, mas previne antes mesmo do nascimento.
A Preventive, startup de biotecnologia da Costa Oeste dos EUA, acaba de anunciar que levantou US$ 30 milhões para pesquisar como criar bebês geneticamente editados de forma segura. É o maior investimento conhecido até hoje em uma tecnologia que permanece tabu, ilegal em diversos países (incluindo os EUA) e altamente controversa na comunidade científica.
A inovação médica mais disruptiva do século
Lucas Harrington, cientista especializado em edição genética e cofundador da Mammoth Biosciences, anunciou a criação da Preventive Medicine PBC em uma postagem pública descrevendo sua missão: pesquisar rigorosamente se a "edição genômica hereditária" pode ser feita de forma segura e responsável.
O conceito: modificar o DNA de embriões para corrigir mutações prejudiciais ou instalar genes benéficos. As modificações seriam transmitidas para gerações futuras.
O objetivo: prevenir doenças antes que elas possam se desenvolver.
Na teoria, pequenas edições genéticas poderiam criar pessoas que nunca desenvolveriam doenças cardíacas, Alzheimer, certos tipos de câncer e que passariam essas características para seus descendentes.
Segundo Harrington, se a técnica provar ser segura, "poderia se tornar uma das tecnologias de saúde mais importantes do nosso tempo." Ele estima que editar um embrião custaria cerca de US$ 5.000 e acredita que regulamentações poderão mudar no futuro.
Por que isso é maior que Ozempic
O Ozempic revolucionou o tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade, gerando um mercado estimado em mais de US$ 100 bilhões globalmente até 2030. Foi um fenômeno de saúde pública, cultural e financeiro.
Mas o Ozempic trata condições existentes. É reativo.
A edição genética de embriões é preventiva por definição. Ela promete eliminar condições antes que existam — não apenas em um indivíduo, mas potencialmente em todas as suas gerações futuras.
Dimensão do impacto potencial:
- Cardiopatias: principal causa de morte no mundo (17,9 milhões/ano)
- Alzheimer: atinge 55 milhões de pessoas globalmente
- Cânceres hereditários: BRCA1/BRCA2 aumentam risco de câncer de mama em até 80%
- Doenças monogênicas: mais de 10.000 condições causadas por mutação em gene único
Se a tecnologia provar ser segura e eficaz, o mercado não será medido em bilhões de dólares, mas em gerações.
Uma corrida com 3 startups
A Preventive é a terceira startup americana em 2025 a anunciar o desenvolvimento dessa tecnologia:
- Bootstrap Bio (Califórnia): busca investimento seed, com interesse declarado em aprimoramento de inteligência
- Manhattan Genomics: em estágio de formação, sem anúncio de financiamento
- Preventive (Costa Oeste): US$ 30 milhões levantados, foco em segurança e prevenção de doenças
Até agora, nenhuma dessas empresas possui equipes ou instalações significativas, e falta credibilidade entre cientistas mainstream de edição genética.
Mas o dinheiro está começando a fluir.
De onde vem os investimentos
Harrington revelou que os US$ 30 milhões vieram de "financiadores privados que compartilham nosso compromisso de pesquisar isso de forma responsável", mas identificou apenas um: SciFounders, firma de venture capital que ele comanda com Matt Krisiloff.
Krisiloff é CEO da Conception, biotech que visa criar óvulos humanos a partir de células-tronco — outra tecnologia que poderia transformar a reprodução.
Conexão Crypto:
A ideia de bebês editados tem recebido crescente atenção de figuras do setor de criptomoedas:
- Brian Armstrong (fundador bilionário da Coinbase): realizou série de jantares off-the-record para discutir a tecnologia, que Harrington frequentou. Armstrong já argumentou publicamente que "é hora" de uma startup nessa área.
- Will Harborne (empreendedor crypto, parceiro na LongGame Ventures): declarou estar "entusiasmado" com o lançamento da Preventive. Se a tecnologia provar ser segura, argumenta, "adoção generalizada é inevitável" e seu uso seria uma "obrigação social".
O fundo de Harborne investiu na Herasight, empresa que usa testes genéticos para ranquear embriões de FIV por QI futuro e outras características — tecnologia já no mercado, pois esses testes não são estritamente regulados.
Alguns começaram a usar o termo "empresas de aprimoramento humano" para se referir a esses empreendimentos.
A edição genética divide a comunidade científica
Fyodor Urnov, especialista em edição genética na UC Berkeley (onde Harrington estudou), foi contundente quando contatado:
Urnov tem sido crítico vocal da edição genômica hereditária, chamando-a de perigosa, equivocada e uma distração dos benefícios reais da edição genética no tratamento de adultos e crianças.
Quando a Manhattan Genomics o contatou sobre colaboração, sua resposta foi direta: "Eu encorajo vocês a pararem. Vocês não causarão nenhum bem e causarão dano formidável."
Falta de fundamento científico:
A Preventive buscou apoio de figuras líderes em edição genômica nos últimos meses, mas segundo sua postagem, garantiu apenas um: Paula Amato, médica de fertilidade na Oregon Health Sciences University, que concordou em atuar como conselheira.
Amato é membro de equipe americana que pesquisa edição de embriões desde 2017 e tem promovido a tecnologia como forma de aumentar sucesso de FIV — corrigindo embriões anormais para tornar mais disponíveis para uso em tentativas de gravidez.
A empresa não conseguiu estabelecer colaboração com pelo menos um grupo-chave de pesquisa.
O precedente chinês
O primeiro cientista a criar bebês geneticamente editados foi He Jiankui, na China, em 2018. Ele editou embriões de dois gêmeos para torná-los resistentes ao HIV.
A reação global foi de condenação quase universal e He Jiankui foi preso por três anos na China. O procedimento permanece ilegal em muitos países, incluindo os Estados Unidos, e dúvidas cercam sua utilidade como forma de medicina.
Ainda assim, He Jiankui permanece esperançoso sobre o futuro da edição de embriões, segundo reportagem recente.
Por que a Preventive pode ser diferente
A empresa foi incorporada em Delaware em maio de 2025 como Public Benefit Corporation (PBC) — estrutura organizada para colocar sua missão pública acima dos lucros.
"Se nossa pesquisa mostrar que [edição genômica hereditária] não pode ser feita de forma segura, essa conclusão é igualmente valiosa para a comunidade científica e sociedade", escreveu Harrington.
Harrington acredita que a Preventive pode mudar atitudes na comunidade científica se demonstrar seriedade em fazer pesquisa responsável:
"A maioria dos cientistas com quem converso aceita a edição de embriões como inevitável ou é entusiasmada sobre o potencial, mas hesita em expressar essas opiniões publicamente. Parte de ser mais público sobre isso é encorajar outros no campo a discutir isso ao invés de ignorar."
Qual é o futuro próximo da edição genética no mercado?
A Preventive levantou US$ 30 milhões para pesquisar edição genética de embriões — maior investimento conhecido na área. É a terceira startup americana em 2025 perseguindo essa tecnologia. Apesar de ilegal nos EUA e controversa cientificamente, o movimento sinaliza mudança estrutural no setor de healthtech reprodutiva.
Isso deveria acontecer? A pergunta é: se acontecer em outros países qual deve ser a posição estratégica? A indústria farmacêutica ignorou cannabis medicinal por décadas. Quando mercados estaduais se abriram, foram startups que capturaram valor. Provavelmente a mente do mercado vai se manter mais aberta em relação a esse caso.