O adesivo que transformou acnes em acessórios e gerou um negócio de mais de US$90 milhões

A marca que fez patches de acne virarem acessório de moda revela uma fórmula replicável: identificar algum tipo de vergonha social, adicionar design e vender atitude, não apenas um produto

O adesivo que transformou acnes em acessórios e gerou um negócio de mais de US$90 milhões

Em 2019, Julie Schott e Brian Bordainick lançaram a Starface com uma proposta simples: vender patches de acne que chamam atenção, não que escondem. Cinco anos depois, a empresa projeta receita de US$ 90 milhões em 2024, já vendeu mais de 1 bilhão de unidades e popularizou uma categoria que deve saltar de US$ 500 milhões para US$ 1 bilhão até 2033, segundo a Spherical Insights.

O produto são adesivos hidrocoloides em forma de estrela, nas cores amarelo vibrante, preto, magenta e arco-íris. Vendidos em pacotes de 32 unidades por US$ 10,99 a US$ 16,99, os "Hydro-Stars" contêm ingredientes como óleo de melaleuca e ácido salicílico.

A inversão do mercado

Antes da Starface, patches de acne existiam desde o final dos anos 2010, oferecidos por marcas como Hero e Peace Out em versões translúcidas e cor de pele. A tecnologia hidrocoloide, usada nesses produtos, existe em curativos médicos desde os anos 1970.

A diferença da Starface está no posicionamento. "Os produtos de acne eram projetados para esconder espinhas", explica Kara Brothers, presidente da empresa. "Nosso objetivo era inverter esse conceito."

A estratégia funcionou. No TikTok, há mais de 500 milhões de vídeos sobre "best pimple patch" e mais de 60 milhões mencionando especificamente a Starface. Celebridades como Millie Bobby Brown e Justin Bieber foram fotografadas usando os patches publicamente.

Público-alvo: Gen Z e Gen Alpha

Sessenta por cento dos clientes têm entre 10 e 27 anos. A marca cresceu durante a pandemia, quando pessoas usavam os patches em videochamadas, e se consolidou quando voltaram a usá-los em público.

"Eu queria algo que tratasse minha acne e também fosse um acessório fofo", diz Shahzaib Sultan, 25 anos, cliente em Montreal.

A comunicação da marca reflete esse público: tom irreverente nas redes sociais, colaborações com Bob Esponja e Hello Kitty, e um mascote chamado "Big Yellow" — personificação do patch amarelo que "veio do espaço e não entende por que as pessoas são duras com quem tem acne."

Modelo de negócio: varejo físico como principal canal

A Starface vende nos EUA, Canadá e Reino Unido através de seu site e varejistas como Target, Walmart e CVS. As vendas no varejo físico "superaram tremendamente" o canal direto ao consumidor, segundo Brothers.

A escolha por varejo físico faz sentido: produto de baixo custo (abaixo de US$ 20), compra por impulso, embalagem chamativa e reposição frequente. São características que favorecem distribuição em massa.

O produto funciona?

Avaliações são mistas. Alguns clientes relatam que os patches ajudam a remover sebo e reduzir inflamação. Outros dizem que funcionam melhor como acessório.

Dr. Jeremy Brauer, dermatologista em Nova York, pondera: "Há um papel para patches como barreira de proteção para espinhas em processo de cura. Podem minimizar inflamação e infecção, mas não são para todo mundo."

Brauer ressalta que a eficácia é menor em pessoas com pele sensível ou acne cística.

Diversificação de produtos

Reconhecendo os limites de depender de um único produto, a Starface expandiu para tiras de poros e hidratante labial. Em 2025, lançará patches transparentes pela primeira vez.

"Um dos maiores desafios que a marca pode enfrentar é se esses patches deixarem de ser cool", observa Claire McCormack, editora sênior da Beauty Independent. "Mas as pessoas sempre vão ter espinhas."

Três riscos principais

1. Dependência de momento cultural: o negócio foi construído quando Gen Z passou a normalizar imperfeições de pele. Se essa atitude mudar, a proposta de valor enfraquece.

2. Baixa barreira de entrada: não há proteção de propriedade intelectual significativa. Qualquer fabricante pode produzir patches coloridos. Grandes marcas de beleza podem entrar no mercado facilmente.

3. Comprovação de eficácia: à medida que consumidores amadurecem, tendem a exigir resultados clínicos comprovados. A empresa precisará investir em pesquisa e formulações mais sofisticadas.

Lições aplicáveis

O case Starface oferece framework replicável:

  • Identificar produtos associados a vergonha social
  • Avaliar mudanças culturais que permitem reposicionamento
  • Investir em design que comunica atitude, não apenas função
  • Construir marca memorável (mascotes, narrativas)
  • Escolher canais onde design visual compensa
  • Preparar defesa quando grandes players entrarem no mercado

Futuro do mercado

O mercado de patches deve crescer em três segmentos:

Aspiracional/fashion (onde Starface domina): Patches coloridos, colaborações limitadas, foco em jovens.

Clínico/funcional: Patches com formulações sofisticadas, respaldados por estudos clínicos.

Masstige: Grandes marcas de beleza lançando versões próprias com escala e distribuição.

A Starface domina o primeiro segmento, mas enfrenta pressão crescente dos outros dois. Sua capacidade de equilibrar identidade cool com credibilidade clínica determinará se será líder de longo prazo ou apenas pioneira que abriu caminho para concorrentes.

Números que importam

  • Receita projetada 2024: US$ 90 milhões
  • Unidades vendidas desde 2019: Mais de 1 bilhão
  • Mercado global atual: US$ 500 milhões
  • Projeção para 2033: US$ 1 bilhão
  • Preço por pacote: US$ 10,99 a US$ 16,99
  • Público principal: 60% Gen Z e Gen Alpha
  • Menções no TikTok: 500 milhões (pimple patches em geral), 60 milhões (Starface)

A Starface provou que há espaço para disrupção mesmo em categorias antigas. Basta identificar vergonha social que pode ser transformada em símbolo de identidade e dar às pessoas uma forma visível de expressá-la. O desafio agora é sustentar crescimento quando a novidade passar.