O poder de preço da Apple virou meme
Agora é cringe ser fã da Apple?
A Apple lançou uma bolsa de tricô para carregar seu iPhone. Sem zíper e sem fecho, parece uma meia para o smartphone. Só um bolso elástico de malha que "estica" ao redor do telefone e "alguns outros itens do dia a dia".
Preço: R$ 870 para a versão com alças curtas. R$ 1.335 para a versão crossbody.
É o iPhone Pocket, feito em colaboração com Issey Miyake (a marca que fazia as icônicas golas rulê pretas do Steve Jobs). A internet reagiu exatamente como você imagina: com escárnio absoluto. Comparações com o mankini do Borat. Piadas sobre "sock" (meia). Tech reviewers roasting unânime.
Existe uma diferença entre brand equity e delírio da marca
A Apple tem o maior brand equity do planeta. Avaliada em mais de $500 bilhões como marca (Interbrand 2024). Isso dá à empresa um superpoder chamado pricing power: a habilidade de cobrar mais pelo mesmo produto porque as pessoas pagam pela marca, não apenas pelo objeto.
Mas existe um limite que é emocional. O problema do iPhone Pocket não é o preço. É o produto.
A Apple já vendeu produtos absurdamente caros que funcionaram:
- AirPods Max: R$ 3.190 (fones de ouvido);
- Apple Vision Pro: R$ 20.300 (headset VR);
- Mac Pro: até R$ 302.000 (computador).
Esses produtos eram aspiracionais através da função. Tecnologia de ponta com design premium. Você pagava caro, mas recebia algo que claramente fazia mais e melhor.
O iPhone Pocket é aspiracional através do... tricô?
A marca perdeu o fio da narrativa?
Vamos analisar a narrativa de produto da Apple:
Narrativa histórica (1997-2015): "Think Different" → Produtos que desafiam status quo → Premium justificado por inovação
Narrativa Jobs (1997-2011): "Intersection of technology and liberal arts" → Design que serve função → Premium justificado por experiência superior
Narrativa Cook (2011-2020): "Best products on earth" → Ecossistema integrado → Premium justificado por conveniência/segurança
Narrativa atual (2020-2025): "We collaborate with luxury brands to make... accessories?" → ??? → Premium justificado por... nostalgia?
O iPhone Pocket não tem narrativa. Tem referência nostálgica (Issey Miyake = Steve Jobs = autenticidade Apple). Mas referência nostálgica sem propósito funcional é cosplay de marca.
Em 2004, quando a Apple lançou os iPod Socks, literalmente meias coloridas para proteger seu iPod, custavam R$ 170 por um pack de 6.
Ou seja: R$ 28 por meia.
O produto foi meio ridículo, mas funcionou porque:
- Era acessível (barreira de entrada baixa);
- Era funcional (proteção básica contra arranhões);
- Era divertido (6 cores, você escolhia por humor);
- Custava menos que cases "sérios" de couro de terceiros.
O iPod Sock era a Apple dizendo: "Somos premium, mas também temos senso de humor." O iPhone Pocket seria a Apple dizendo: "Você vai pagar R$ 1.335 por tricô porque somos a Apple."
É uma atitude que mostra até certo grau de arrogância da marca.
O impacto das meias de iPhone
O iPhone Pocket não vai destruir a Apple. Mas é sintoma de algo maior: uma marca que está mais confortável cobrando premium do que justificando premium.
Steve Jobs teria lançado isso?
Enquanto isso, a Xiaomi acabou de lançar uma case de silicone com MagSafe por R$46 que funciona perfeitamente.
Às vezes, a melhor estratégia de marca é fazer um produto bom por um preço justo. Conceito revolucionário, não?