Os fãs de Oasis vão salvar a indústria de cerveja
Como a volta dos irmãos Gallagher revelou o segredo mais bem guardado do marketing de bebidas: a nostalgia vende litros
Os shows da turnê de reunião do Oasis em Wembley, Londres, estabeleceram um novo parâmetro para consumo de bebidas alcoólicas em eventos ao vivo. Com aproximadamente 140 mil litros de cerveja vendidos por noite durante os cinco shows realizados no estádio, a banda britânica gerou mais de R$ 100 milhões apenas em vendas de cerveja.
Os números sinalizam uma desconexão entre as estratégias de marketing da indústria de bebidas e o comportamento real de consumo de determinadas demografias.
Comparativo de consumo revela padrões
A magnitude do consumo nos shows do Oasis torna-se ainda mais relevante quando comparada a outros eventos de grande porte. Em Wembley, os shows do Coldplay em 2023 registraram vendas de 70 mil litros por noite, enquanto a turnê de Taylor Swift atingiu 20 mil litros por apresentação.
O consumo do Oasis superou o Coldplay em 100% e Taylor Swift em 600%.
A comparação internacional reforça a excepcionalidade dos números. No show do Metallica no Stade de France, o consumo atingiu 50 mil litros. No Rock in Rio 2024, foram vendidos 520 mil litros de chope em sete dias, resultando em média de 75 mil litros diários, número ainda inferior ao consumo concentrado de uma única noite do Oasis.
Nos Estados Unidos, o festival Stagecoach, voltado para o público country, vende mais álcool em um único dia do que o Coachella durante seus dois fins de semana completos, evidenciando como diferentes perfis demográficos e culturais apresentam padrões de consumo radicalmente distintos.
A infraestrutura para uma demanda tão alta
A empresa responsável pela alimentação em Wembley precisou improvisar soluções logísticas para atender à demanda. Foram adaptados espaços não convencionais, incluindo armários e áreas sob escadas, para armazenar aproximadamente 4.500 barris de cerveja durante a turnê.
A necessidade de adaptação física da infraestrutura do estádio indica que os modelos de previsão de demanda utilizados pela indústria não contemplavam consumo dessa magnitude para esse tipo de evento.
Perfil demográfico e poder aquisitivo
O público do Oasis apresenta perfil demográfico específico: majoritariamente entre 40 e 55 anos, formado por integrantes da geração X e millennials mais velhos que vivenciaram o auge do Britpop nos anos 1990.
Este segmento possui características relevantes para a indústria de bebidas:
- Poder aquisitivo consolidado: faixa etária em fase de maior estabilidade financeira.
- Padrões de consumo estabelecidos: Menor propensão a mudanças de hábito comparado a consumidores mais jovens
Dados do mercado brasileiro indicam que o gasto médio com bebidas alcoólicas em eventos em 2025 é de R$ 120 por pessoa, com cerveja representando 77% das vendas. Em eventos premium como shows de reunião de bandas icônicas, esse valor tende a ser significativamente superior.
Fragmentação do mercado de bebidas
A indústria de bebidas enfrenta fragmentação crescente por faixa etária. Pesquisas indicam que o público de 15 a 29 anos demonstra preferência crescente por drinques prontos para beber (ready-to-drink), incluindo misturas de vodca e cachaça com sucos e refrigerantes, além de hard seltzers e bebidas de baixo teor alcoólico.
Esta mudança comportamental tem impactado negativamente o desempenho das cervejarias tradicionais. A AB InBev registrou perda de 30% em valor de mercado entre 2016 e 2023.
A Heineken reportou trimestres consecutivos de queda em volume de vendas. O consumo per capita de cerveja vem diminuindo consistentemente nos Estados Unidos e Europa na última década.
A estratégia predominante na indústria de cerveja nos últimos anos concentrou-se em:
- Desenvolvimento de produtos para consumidores mais jovens (seltzers, cervejas com sabor, low-carb)
- Posicionamento associado a wellness e consumo moderado
- Narrativas de marketing focadas em inclusividade e responsabilidade social
- Redução da associação tradicional entre cerveja e eventos sociais de alta energia
Enquanto isso, o segmento de 40-55 anos – demograficamente maior, com maior poder aquisitivo e padrões de consumo mais estáveis – recebeu investimento proporcional menor em marketing e desenvolvimento de produto.
Conclusão
O consumo de 140 mil litros de cerveja por noite nos shows do Oasis em Wembley não representa uma anomalia, mas um indicador de demanda latente em segmento demográfico específico.
A indústria de bebidas enfrenta escolha estratégica: continuar focando recursos em segmentos de crescimento incerto ou reequilibrar investimentos para capturar valor em demografias estabelecidas com padrões de consumo comprovados.
Os números sugerem que a segunda opção pode oferecer retorno mais previsível no curto e médio prazo, enquanto estratégias de longo prazo para gerações mais jovens amadurecem.
A questão não é se o segmento 40-55 anos representa oportunidade viável, os dados confirmam que sim, mas sim se a indústria está estruturalmente preparada para capturar esse valor antes que a janela demográfica se feche.