Por que empresas do agro podem perder mercado com o acordo Mercosul-UE?
26 anos de negociações parecem ter trazido um teste para o agro no qual o posicionamento das empresas será tão importante quanto a capacidade produtiva.
Quando o acordo Mercosul-União Europeia, que elimina gradualmente tarifas entre os blocos, avançou em dezembro de 2024, executivos do agronegócio brasileiro celebraram o acesso a 450 milhões de consumidores, mas esqueceram-se que, na verdade, o mercado europeu significa uma entrada em um contexto de maior auditoria fiscal, legislação ambiental e pouca tolerância para narrativas corporativas vazias.
Os números parecem promissores à primeira vista: bilhões de dólares em exportações agropecuárias brasileiras têm potencial de crescimento com a eliminação gradual de tarifas. Mas um merece atenção: cada dólar exportado agora depende menos da sua capacidade produtiva e mais da sua capacidade de comprovar e comunicar a qualidade do seu produto.
O caso do café brasileiro
Em 2024, a União Europeia comprou quase metade de todo o café brasileiro exportado, um crescimento de 43% em volume segundo o CECAFÉ. Mas, então você compreende que os compradores europeus anteciparam pedidos com medo de que fornecedores não conseguissem comprovar a sustentabilidade quando o EUDR (regulamento antidesmatamento da UE) entrasse em vigor no final de 2025.
Então, o alto volume de demanda não foi um voto de confiança no produto do Brasil. O café solúvel mostra o tamanho do desafio. Enquanto o grão já entra na Europa sem tarifa, o solúvel paga 9%, taxa que o acordo deve zerar em quatro anos. Mas o Vietnã, nosso concorrente direto, já tem tarifa zero há anos.
Temos 48 meses para deixar de ser commodity genérica e virar marca preferida.
E nesse sentido, temos um diferencial: os cafés especiais brasileiros cresceram muito em 2024, vendendo com valor bem acima do café comum, simplesmente porque é um produto sobre o qual o Brasil foi capaz de contar a história, as origens, os métodos de produção.
É preciso entender que o mercado europeu já paga mais por produtos com narrativa comprovada. Hoje, esse dinheiro extra fica com intermediários e torrefações estrangeiras que dominam o storytelling. O acordo abre caminho para produtores brasileiros capturarem esse valor se aprenderem a comunicar origem, qualidade e sustentabilidade de forma convincente.
É preciso atentar às salvaguardas do acordo
O acordo traz dois mecanismos que podem travar as exportações brasileiras a qualquer momento.
O primeiro é a "salvaguarda comercial": se as importações de produtos sensíveis (carnes, laticínios, açúcar) crescerem além de 5% na média de três anos, a UE pode suspender os benefícios tarifários.
Isso quer dizer que mesmo vendendo dentro das cotas estabelecidas, se a sua empresa crescer rápido demais de acordo com os parâmetros da UE, o bloco pode reverter as tarifas zero por pressão de produtores europeus.
O segundo risco é ainda mais imediato: investigações sobre questões ambientais, trabalhistas ou sanitárias levam entre 60 e 90 dias para travar embarques. Então, qualquer processo burocrático não pode ter atrasos em nenhum setor das empresas, pois qualquer crise reputacional pode paralisar as exportações antes das procedências jurídicas.
Essas salvaguardas não estavam no acordo original e foram inseridas unilateralmente pela UE após 26 anos de negociação, sem consulta ao Mercosul.
A comunicação do agro importa
Neste novo cenário, assessoria de comunicação profissional é essencial para o agro. Empresas precisam de monitoramento de mídia, gestão de crise preventiva, e capacidade de responder a um público internacional.
O caso da Marfrig ilustra bem essa necessidade. A empresa, que é uma das maiores produtoras globais de carne bovina, conquistou a nota máxima (Triplo A) do CDP, organização global que avalia desempenho ambiental corporativo, sendo a única nas Américas no setor de alimentos a conseguir essa classificação. Mesmo assim, foi excluída do Índice de Sustentabilidade Empresarial da bolsa brasileira (ISE B3) depois que algoritmos de inteligência artificial detectaram riscos reputacionais na empresa.
O desempenho ambiental real e a percepção pública do mercado são coisas completamente diferentes. A Marfrig tinha os melhores dados de ESG do continente, mas perdeu posição em um dos principais índices de investimento por questões de imagem. Para o mercado europeu, é preciso ainda mais comunicar de forma transparente e consistente a fim de que sua reputação resista tanto a análises de IA quanto ao escrutínio de consumidores, ONGs e reguladores.
Portanto, a questão não é só se o seu produto tem qualidade, mas se a sua empresa consegue provar essa qualidade, para que os acordos realmente permitam expandir o mercado e não fechar portas.
