Por que estes foram os segmentos do varejo que mais cresceram em 2025?
O varejo brasileiro avançou modesto 1,5% no ano, mas o segmento de informática teve alta de 8,1% e farmácias cresceram 5,7%. A resposta não está no acaso.
O varejo brasileiro está terminando 2025 com crescimento fraco de 1,5% no acumulado do ano, segundo o IBGE, mas com setores específicos crescendo em índices que desafiam a lógica do ambiente macroeconômico hostil.
Enquanto a Selic escalou para 12,25% ao ano e o crédito encareceu 47% em termos reais desde 2023, equipamentos de informática e comunicação elevaram as vendas em 8,1% apenas em outubro, e o segmento de artigos farmacêuticos, médicos e perfumaria subiu 5,7% no mesmo período.
O que esses setores tiveram a seu favor?
O cenário do crédito em 2025
Para começar, informática e farmácia são segmentos que não dependem tanto de crédito e tampouco de financiamentos. Foi por isso que enquanto esses mercados cresceram, as vendas em veículos e materiais de construção seguem em negativa em relação ao ano passado.
Com o mercado imobiliário e automobilístico travados, o consumidor brasileiro procurou melhorar o que já tem e por isso as vendas cresceram em eletrodomésticos, informática, a fim de otimizar o desempenho em trabalho e lazer, e em farmácia para aperfeiçoar o autocuidado, além das alta procura por medicamentos.
Tecnologia
O segmento de informática executou uma manobra rara no varejo: transformou produtos de ciclo longo em necessidades de reposição contínua.
Dados da IDC Brasil revelam que 43% das vendas de smartphones em 2025 foram para consumidores cujo aparelho anterior tinha menos de dois anos de uso. A categoria criou artificialmente um mercado de reposição onde antes existia apenas troca por quebra. "A indústria tech aprendeu que não é necessário que um produto pare de funcionar para ser substituído, basta que pareça ultrapassado", afirma Marcelo Amorim, diretor de pesquisa da IDC Brasil.
Mas a melhor medida foi outra: o domínio absoluto do parcelamento sem juros. Enquanto setores tradicionais dependem de aprovação de crédito bancário, o varejo tech brasileiro oferece parcelamento em até 10 vezes sem juros, absorvendo o custo financeiro como investimento em market share. Magazine Luiza, Casas Bahia e Amazon Brasil transformaram isto em padrão.
Esta reconfiguração transforma produtos de ticket alto em micropagamentos mensais, contornando a barreira do crédito caro sem precisar dele.
Farmácias
As grandes redes, Raia Drogasil, Pague Menos, Extrafarma, passaram a se posicionar como conveniências de lifestyle.
Os números da ABRAFARMA (Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias), em 2025, indicam que, pela primeira vez, produtos não-farmacêuticos representaram 38% do faturamento das redes associadas, contra 28% em 2020. O ticket médio subiu de R$ 67 para R$ 94 entre 2023 e 2025, mas a frequência de visita manteve-se estável em 2,3 vezes por mês.
A estratégia, segundo Sergio Mena Barreto, CEO da ABRAFARMA, é usar a compra obrigatória e recorrente dos medicamentos para gerar tráfego, e monetizar com dermocosméticos, suplementos e conveniência. Todo cliente fidelizado das grandes redes recebe com recorrência ofertas personalizadas de acordo com suas compras usuais.
Além disso, a pandemia recodificou permanentemente a percepção de valor sobre saúde preventiva. O segmento de vitaminas e suplementos cresceu 34% em volume no triênio 2022-2025, segundo dados do IQVIA. As farmácias capturaram esta onda posicionando-se como "consultores de wellness" através de farmacêuticos treinados em venda consultiva.
Mas o diferencial competitivo mais profundo está nos programas de fidelidade transformados em motores de inteligência de dados. A RD Saúde (Raia Drogasil) tem 45 milhões de clientes cadastrados no programa Liv up, gerando dados comportamentais que permitem personalização cirúrgica de ofertas. "Nossos algoritmos sabem quando um cliente está próximo de acabar um medicamento de uso contínuo e disparam ofertas antes mesmo dele perceber a necessidade de recompra", revela executivo da área de CRM da companhia, que pediu anonimato.
Enquanto outros setores retraíram investimentos, as redes farmacêuticas aceleraram expansão territorial. RD Saúde abriu 436 novas unidades em 2024-2025, Pague Menos adicionou 187 lojas. A lógica: em ambiente de consolidação setorial, ganhar território agora significa erguer barreiras de entrada permanentes via densidade de rede.